Nossa Senhora Rainha da Paz
Todos querem a paz.
Queremos paz entre as nações.
Queremos paz nas cidades.
Queremos paz dentro das nossas casas.
Queremos paz em nossos relacionamentos.
E, talvez acima de tudo, queremos paz dentro de nós.
Porque existem guerras que aparecem na televisão e existem guerras que ninguém vê.
Há pessoas vivendo verdadeiras batalhas dentro do coração.
Batalhas contra o medo.
Contra a ansiedade.
Contra a mágoa.
Contra a solidão.
Contra o ressentimento.
Contra lembranças que ainda machucam.
Existem guerras dentro das famílias.
Pais que não conversam mais com os filhos.
Irmãos que se afastaram.
Casamentos feridos.
Amizades rompidas.
Palavras que foram ditas e que nunca mais puderam ser recolhidas.
E diante de tudo isso, a pergunta que fazemos hoje é:
ONDE ENCONTRAR A VERDADEIRA PAZ?
É justamente aqui que entra o tema do nosso programa:
MARIA, RAINHA DA PAZ
Mas atenção: nós não chamamos Maria de Rainha da Paz simplesmente porque imaginamos Nossa Senhora como uma mulher que teve uma vida tranquila.
Muito pelo contrário!
Maria conheceu a incerteza.
Maria precisou fugir com José e o Menino para o Egito.
Maria conheceu a pobreza.
Maria experimentou a preocupação de procurar Jesus durante três dias.
Maria ouviu incompreensões e rejeições dirigidas ao seu Filho.
Maria acompanhou Jesus no caminho do Calvário.
E Maria permaneceu aos pés da Cruz.
Portanto, Maria não é Rainha da Paz porque nunca enfrentou tempestades.
Maria é Rainha da Paz porque não permitiu que as tempestades roubassem Deus do seu coração.
Que coisa bonita!
Talvez nós tenhamos confundido paz com ausência de problemas.
Paz não significa uma vida sem cruzes.
Paz não significa que tudo vai acontecer como queremos.
Paz não significa ausência de lágrimas.
A verdadeira paz é poder atravessar as tempestades da vida sabendo que Deus continua conosco.
E Maria sabia disso.
Por isso, quando olhamos para Nossa Senhora, encontramos uma mulher profundamente habitada por Deus.
E quem está cheio de Deus pode até atravessar uma guerra por fora, mas luta para não deixar a guerra entrar no coração.
Talvez seja exatamente disso que o nosso mundo esteja precisando.
Porque é muito fácil pedir:
“Nossa Senhora, dê paz ao mundo!”
Mas talvez Maria hoje nos devolvesse outra pergunta:
“E você? Tem sido instrumento de paz onde Deus colocou você?”
Como estão as nossas palavras?
Como tratamos as pessoas dentro de casa?
Como reagimos quando somos contrariados?
Quantas brigas alimentamos?
Quantas mágoas carregamos?
Quantas vezes queremos vencer uma discussão, quando deveríamos salvar uma relação?
Talvez a paz do mundo comece muito mais perto do que imaginamos.
Começa dentro de mim.
Começa dentro de você.
Começa dentro da nossa casa.
Começa quando alguém decide perdoar.
Quando alguém decide não responder uma ofensa com outra ofensa.
Quando alguém decide procurar quem está afastado.
Quando alguém abaixa a voz.
Quando alguém dá o primeiro passo.
Quando alguém escolhe amar em vez de ferir.
Por isso, hoje queremos entrar na escola de Maria.
Queremos aprender com aquela que a Igreja invoca há séculos como:
REGINA PACIS – RAINHA DA PAZ.
E talvez, ao final deste programa, descubramos uma coisa muito bonita:
Maria não quer apenas que sejamos pessoas que pedem a paz.
Maria quer nos ensinar a sermos pessoas que constroem a paz.
Nossa Senhora, Rainha da Paz,
rogai por nós!
ORIGEM DA INVOCAÇÃO MARIANA – MARIA, RAINHA DA PAZ
De onde vem essa invocação?
Quando nós rezamos:
“Rainha da Paz, rogai por nós!”
talvez poucas pessoas saibam que essa invocação carrega consigo uma história muito bonita e, ao mesmo tempo, marcada pelo sofrimento da humanidade.
A devoção a Maria como Rainha é muito antiga na Igreja. Desde os primeiros séculos, os cristãos reconheceram uma relação muito especial entre a maternidade de Maria e a realeza de Cristo.
Se Jesus é o Príncipe da Paz, como anuncia o profeta Isaías, Maria, sua Mãe, foi sendo contemplada pela tradição cristã também como aquela que conduz seus filhos ao verdadeiro Rei e à verdadeira paz.
Ao longo dos séculos, santos, comunidades religiosas e povos cristãos recorreram inúmeras vezes à intercessão de Nossa Senhora em momentos de guerras, conflitos, perseguições e calamidades.
Por isso, a associação entre Maria e a paz é muito anterior ao século XX.
Mas existe um momento histórico particularmente importante para entendermos a invocação “Rainha da Paz” na Ladainha de Nossa Senhora.
O MUNDO ESTAVA EM GUERRA
Estamos no início do século XX.
Em 1914, começa a Primeira Guerra Mundial.
Europa em guerra.
Milhões de soldados enviados aos campos de batalha.
Famílias destruídas.
Cidades devastadas.
Jovens morrendo nas trincheiras.
Mães esperando filhos que muitas vezes jamais voltariam para casa.
Era uma tragédia de proporções até então inimagináveis.
Em 1914, foi eleito Papa Bento XV.
E grande parte de seu pontificado seria marcada justamente por uma preocupação: trabalhar pela paz.
Bento XV tentou utilizar a diplomacia da Santa Sé para aproximar os povos e pedir o fim das hostilidades.
Em 1917, chegou a apresentar uma proposta concreta de paz às nações envolvidas no conflito.
Mas a guerra continuava.
E então aconteceu algo profundamente significativo.
QUANDO OS HOMENS NÃO CONSEGUIAM FAZER A PAZ, O PAPA VOLTOU-SE PARA MARIA
Em meio àquela guerra terrível, Bento XV pediu que toda a Igreja recorresse de maneira especial à intercessão de Nossa Senhora.
No dia 5 de maio de 1917, o Papa determinou que fosse acrescentada à Ladainha Lauretana uma nova invocação:
REGINA PACIS, ORA PRO NOBIS.
Isto é:
RAINHA DA PAZ, ROGAI POR NÓS.
É muito bonito perceber o contexto.
A Igreja estava colocando nos lábios dos cristãos do mundo inteiro uma súplica:
Maria, ajude-nos a reencontrar a paz!
E existe ainda uma coincidência histórica impressionante.
A determinação de Bento XV aconteceu em 5 de maio de 1917.
Apenas oito dias depois, em 13 de maio de 1917, ocorreriam os acontecimentos que deram início às aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos em Fátima, Portugal.
E qual seria uma das grandes mensagens associadas a Fátima?
Justamente a oração, a conversão e a paz.
Maria pediria oração pelo fim da guerra e pela paz no mundo.
Não precisamos transformar essa proximidade de datas em uma relação de causa e efeito. Mas é impossível não perceber como o tema da paz atravessa profundamente aquele momento histórico da Igreja.
MAS POR QUE MARIA É CHAMADA DE RAINHA DA PAZ?
Não porque Maria seja a fonte da paz.
Para a fé cristã, a verdadeira paz vem de Deus.
Cristo é a nossa paz.
Maria é Rainha da Paz porque está inteiramente ligada a Jesus Cristo, aquele que veio reconciliar a humanidade com Deus.
Foi ela quem trouxe ao mundo, em seu ventre, Jesus, o Príncipe da Paz.
Foi ela quem cantou no Magnificat a esperança de um mundo transformado pela ação de Deus.
Foi ela quem permaneceu firme quando tudo parecia desmoronar ao redor.
E foi ela quem permaneceu junto dos discípulos, em oração, esperando o Espírito Santo.
Maria não substitui Jesus.
Maria nos conduz a Jesus.
E justamente por isso pode ser chamada Rainha da Paz: porque apresenta seus filhos Àquele que é a própria Paz.
UMA INVOCAÇÃO NASCIDA NO MEIO DA GUERRA
Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história.
A expressão “Rainha da Paz” tornou-se uma invocação universal da Ladainha não em um momento de tranquilidade, mas no meio de uma guerra.
Isso diz muito para nós.
A Igreja não esperou a guerra terminar para chamar Maria de Rainha da Paz.
Chamou-a assim quando ainda havia bombas, trincheiras, lágrimas e mortes.
Como se dissesse:
“Mesmo quando ainda não conseguimos enxergar a paz, continuamos acreditando que ela é possível.”
E talvez essa seja também a mensagem para nós hoje.
Há guerras entre países.
Mas existem também guerras dentro das famílias.
Guerras entre irmãos.
Guerras dentro dos casamentos.
Guerras alimentadas por orgulho.
Guerras provocadas por palavras.
E existem até guerras silenciosas dentro do nosso próprio coração.
Por isso, mais de um século depois daquele gesto de Bento XV, a Igreja continua rezando:
REGINA PACIS, ORA PRO NOBIS.
Rainha da Paz, rogai por nós.
Rogai pela paz entre os povos.
Rogai pela paz dentro das nossas famílias.
Rogai pela reconciliação daqueles que não conseguem mais conversar.
Rogai pelos corações feridos.
Rogai para que aprendamos que construir a paz não é apenas esperar que o outro mude.
É permitir que Deus comece a paz dentro de nós.
Maria, Rainha da Paz, rogai por nós!
COMO VIVER A PAZ QUE MARIA NOS INSPIRA
MARIA, RAINHA DA PAZ
Como Nossa Senhora pode nos inspirar a viver a paz?
Quando pedimos:
“Maria, Rainha da Paz, rogai por nós!”
não estamos apenas pedindo que Nossa Senhora faça alguma coisa por nós.
Estamos também dizendo:
“Maria, ensina-nos a viver como você viveu.”
Porque Maria não apenas pede a paz para seus filhos.
Maria nos educa para a paz.
E olhando para a vida dela, podemos descobrir pelo menos cinco lugares onde a paz precisa acontecer.
PAZ COM DEUS
Maria nos ensina a confiar
Talvez esta seja a primeira paz que precisamos recuperar.
Porque algumas pessoas não estão em paz com Deus.
Estão magoadas com Ele.
“Por que Deus permitiu isso?”
“Por que não respondeu à minha oração?”
“Por que aconteceu justamente comigo?”
“Por que perdi aquela pessoa?”
“Por que minha vida tomou esse rumo?”
Maria também viveu situações que não compreendia.
Quando o anjo anuncia que ela seria a mãe de Jesus, Maria pergunta:
“Como acontecerá isso?”
Ela não compreende tudo.
Mas responde:
“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Que diferença!
Maria não diz:
“Eu entendi tudo.”
Maria diz:
“Eu confio.”
Essa é uma grande lição.
Para estar em paz com Deus, não precisamos compreender tudo o que Deus faz.
Precisamos aprender a confiar mesmo naquilo que ainda não compreendemos.
Às vezes nossa oração deveria deixar de ser:
“Senhor, explique-me tudo!”
e passar a ser:
“Senhor, eu não entendo, mas continuo confiando em Ti.”
Maria nos ensina:
A paz começa quando paramos de exigir todas as respostas de Deus e começamos a confiar em sua presença.
PAZ CONOSCO MESMOS
Maria nos ensina a acolher quem somos
Existe uma guerra que ninguém vê.
É a guerra que algumas pessoas travam contra si mesmas.
Não gostam de quem são.
Não aceitam o próprio corpo.
Não aceitam a própria história.
Não conseguem perdoar os próprios erros.
Vivem se comparando.
“Fulano conseguiu.”
“Eu não consegui.”
“Ela é mais bonita.”
“Ele tem mais sucesso.”
“Eu deveria ter feito diferente.”
E assim passamos a vida brigando conosco mesmos.
Maria nos mostra outro caminho.
No Magnificat, ela diz:
“Minha alma engrandece o Senhor.”
Maria reconhece sua pequenez, mas também reconhece as maravilhas que Deus realizou nela.
Ela não precisa diminuir ninguém para reconhecer aquilo que Deus fez em sua vida.
E aqui está uma lição belíssima:
Quem sabe que é amado por Deus não precisa passar a vida competindo com os outros.
Talvez você não tenha tudo aquilo que gostaria.
Talvez tenha cometido erros.
Talvez existam capítulos de sua história que você gostaria de apagar.
Mas você continua sendo alguém amado por Deus.
Maria nos ensina a olhar para nós mesmos não apenas com os nossos olhos, mas com os olhos de Deus.
E talvez hoje precisemos dizer:
“Senhor, ajuda-me a fazer as pazes comigo mesmo.”
PAZ DENTRO DA FAMÍLIA
Maria nos ensina a perceber antes de acusar
Vamos para Caná.
Está acontecendo uma festa de casamento.
E surge um problema:
“Eles não têm mais vinho.”
Maria percebe.
Mas há algo muito interessante.
Ela não procura culpados.
Não pergunta:
“Quem calculou errado?”
“Quem comprou pouco vinho?”
“Quem é o responsável por essa vergonha?”
Maria simplesmente leva a necessidade a Jesus:
“Eles não têm mais vinho.”
Que escola para nossas famílias!
Quantos problemas familiares pioram porque, diante de uma dificuldade, nossa primeira preocupação é descobrir:
“De quem é a culpa?”
Maria nos ensina outra pergunta:
“O que eu posso fazer para ajudar?”
Imagine quantas famílias seriam diferentes se trocássemos a acusação pela colaboração.
Em vez de:
“Você nunca muda!”
dizer:
“Como podemos melhorar isso?”
Em vez de:
“A culpa é sua!”
perguntar:
“Como vamos resolver juntos?”
Em vez de lembrar constantemente os erros antigos:
“Vamos começar novamente?”
A paz dentro de casa não acontece porque todos pensam igual.
A paz acontece quando o amor se torna mais importante do que ter razão.
Talvez em muitas famílias esteja faltando vinho.
O vinho do diálogo.
O vinho do carinho.
O vinho da paciência.
O vinho do perdão.
E Maria continua dizendo:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
PAZ COM O PRÓXIMO
Maria nos ensina a dar o primeiro passo
Depois da Anunciação, Maria descobre que Isabel está grávida.
E o Evangelho diz algo maravilhoso:
Maria levantou-se e partiu apressadamente.
Maria vai.
Maria procura.
Maria atravessa a distância.
Maria dá o primeiro passo.
Aqui está uma das atitudes mais difíceis para construir a paz:
DAR O PRIMEIRO PASSO.
Nós pensamos:
“Ele que me procure.”
“Ela que peça desculpas.”
“Eu não fiz nada.”
“Quando ele falar comigo, eu falo.”
E passam-se semanas.
Meses.
Às vezes anos.
Famílias inteiras ficam separadas esperando alguém dar o primeiro passo.
Maria nos ensina:
Quem ama não pergunta apenas quem está certo. Pergunta quem pode começar a reconciliação.
Dar o primeiro passo não significa dizer que o outro estava certo.
Não significa aceitar injustiça.
Não significa permitir abuso.
Significa apenas dizer:
“Eu não quero alimentar essa guerra.”
Às vezes uma mensagem resolve.
Um telefonema.
Um pedido de desculpas.
Um abraço.
Uma conversa.
Uma frase:
“Podemos conversar?”
Talvez exista alguém esperando justamente o nosso primeiro passo.
PAZ NO MUNDO
Maria nos ensina que ninguém é estranho para nós
No Calvário, Jesus diz:
“Mulher, eis aí o teu filho.”
E ao discípulo:
“Eis aí tua mãe.”
Ali acontece algo extraordinário.
A maternidade de Maria se abre.
Aos pés da Cruz, ela recebe uma nova família.
Por isso, quando chamamos Maria de Rainha da Paz, não podemos pensar somente na paz da nossa própria casa.
O coração cristão precisa aprender a sofrer também com a dor dos outros.
A criança que morre numa guerra não é simplesmente “problema daquele país”.
O refugiado não é apenas uma estatística.
O faminto não é um número.
A vítima da violência não é uma notícia.
É nosso irmão. É nossa irmã.
Maria nos ajuda a recuperar essa consciência.
A paz mundial começa quando deixamos de dividir a humanidade entre:
“nós” e “eles”.
Porque diante de Deus existe uma única família humana.
Não podemos resolver sozinhos as guerras do planeta.
Mas podemos decidir que a guerra não continuará através de nós.
Podemos rejeitar o ódio.
Podemos não espalhar mentiras.
Podemos não transformar diferenças em inimigos.
Podemos ensinar nossas crianças a respeitar.
Podemos rezar pelos que sofrem.
Podemos ajudar concretamente quem precisa.
Podemos ser construtores da paz no pequeno pedaço do mundo que Deus colocou em nossas mãos.
OS CINCO CÍRCULOS DA PAZ
Talvez possamos resumir assim:
PAZ COM DEUS:
Maria me ensina a CONFIAR.
PAZ COMIGO MESMO:
Maria me ensina a ACOLHER-ME.
PAZ NA FAMÍLIA:
Maria me ensina a DIALOGAR E PERDOAR.
PAZ COM O PRÓXIMO:
Maria me ensina a DAR O PRIMEIRO PASSO.
PAZ NO MUNDO:
Maria me ensina a ENXERGAR O OUTRO COMO IRMÃO.
E perceba uma coisa:
a paz vai de dentro para fora.
É muito difícil construir a paz no mundo quando existe uma guerra dentro de mim.
É difícil levar paz para minha família se meu coração está cheio de ressentimento.
É difícil falar de reconciliação se eu mesmo me recuso a perdoar.
Por isso, talvez a oração mais importante deste programa não seja:
“Nossa Senhora, muda o mundo.”
Talvez seja:
“Nossa Senhora, começa por mim.”
Tira de mim aquilo que produz guerra.
Tira de mim o orgulho.
Tira de mim a agressividade.
Tira de mim o ressentimento.
Tira de mim a necessidade de sempre ter razão.
Ensina-me a ouvir.
Ensina-me a perdoar.
Ensina-me a pedir perdão.
Ensina-me a dar o primeiro passo.
Ensina-me a ser presença de paz.
Porque talvez eu não consiga acabar com as guerras do mundo.
Mas posso decidir que nenhuma guerra começará em mim.
Maria, Rainha da Paz, fazei de nós instrumentos da paz de vosso Filho Jesus. Amém.




















