Nossa Senhora do Rosário
Como está a sua vida de oração?
Não estou perguntando se você acredita em Deus.
Não estou perguntando se você vai à igreja.
Não estou perguntando se você carrega uma medalha no pescoço, se tem uma imagem de Nossa Senhora em casa ou se conhece muitas orações.
Eu estou perguntando algo mais profundo.
Você tem rezado?
Você tem parado, todos os dias, para colocar a sua vida diante de Deus?
Porque nós estamos vivendo tempos de muita correria, muito barulho, muita informação, muita ansiedade e muita distração.
Temos tempo para olhar o celular dezenas de vezes durante o dia.
Temos tempo para acompanhar notícias, responder mensagens, assistir a vídeos, navegar pelas redes sociais.
Mas, muitas vezes, dizemos que não temos tempo para rezar.
E talvez esteja justamente aí uma das razões pelas quais tanta gente anda cansada por dentro.
Porque o corpo até pára, mas a alma não descansa.
A cabeça deita no travesseiro, mas os pensamentos continuam correndo.
O coração está cheio de preocupações, medos, perguntas, feridas e incertezas.
E é exatamente nesse mundo acelerado que a Igreja nos coloca nas mãos uma oração antiga, simples, profundamente bíblica e extraordinariamente atual.
O Santo Rosário.
Talvez alguém diga: “Mas, Frei, o Rosário não é uma oração antiga demais para os problemas de hoje?”.
E eu diria exatamente o contrário.
Talvez nunca tenhamos precisado tanto do Rosário como precisamos hoje.
Precisamos do Rosário porque estamos perdendo a capacidade de silenciar.
Precisamos do Rosário porque nossas famílias precisam voltar a rezar juntas.
Precisamos do Rosário porque há pessoas enfrentando batalhas que ninguém vê.
Precisamos do Rosário porque existem mães chorando pelos filhos.
Pais preocupados com suas famílias.
Casamentos atravessando crises.
Pessoas lutando contra doenças.
Jovens procurando um sentido para a própria vida.
Idosos experimentando a solidão.
Corações feridos tentando continuar.
E há momentos em que nós simplesmente não sabemos mais o que dizer a Deus.
É justamente nesses momentos que podemos pegar o nosso terço nas mãos e começar.
Uma Ave-Maria.
Depois outra.
E outra.
Até que, quase sem perceber, aquilo que estava pesado começa a ser colocado diante de Deus.
É importante compreender uma coisa.
Rezar o Rosário não significa fugir dos problemas.
Significa aprender a atravessar os problemas acompanhado.
Você continua tendo uma cruz.
Mas já não a carrega sozinho.
Você continua tendo perguntas.
Mas começa a olhar para elas à luz da fé.
Você continua enfrentando lutas.
Mas percebe que existe uma presença caminhando ao seu lado.
E essa presença nos conduz sempre para Jesus.
Porque é preciso dizer com muita clareza.
O Rosário não termina em Maria. Maria nos leva a Jesus.
Quando rezamos o Rosário, nós percorremos com Maria os grandes mistérios da vida de Cristo.
Contemplamos sua Encarnação.
Sua infância.
Sua vida pública.
Sua paixão.
Sua morte.
Sua ressurreição.
Sua glória.
Por isso, o Rosário não é simplesmente uma sequência de Ave-Marias.
O Rosário é o Evangelho contemplado com os olhos e com o coração de Maria.
Enquanto os nossos lábios repetem a Ave-Maria, o nosso coração contempla Jesus.
É como se disséssemos a Nossa Senhora:
“Maria, empreste-me os seus olhos, porque eu quero olhar para Jesus como a senhora olhou. Ensine-me a amar Jesus como a senhora amou. Ensine-me a confiar nele como a senhora confiou”.
E então acontece algo muito bonito.
Enquanto contemplamos os mistérios da vida de Jesus, começamos também a compreender os mistérios da nossa própria vida.
Porque todos nós temos os nossos mistérios gozosos.
Momentos de alegria, encontros, nascimentos, conquistas e graças.
Todos nós atravessamos também momentos luminosos, quando Deus parece iluminar claramente o nosso caminho.
Mas também conhecemos os mistérios dolorosos.
A doença.
A perda.
A traição.
A solidão.
A lágrima.
A cruz.
E esperamos, pela fé, alcançar também os mistérios gloriosos.
Porque para quem acredita em Cristo, a cruz nunca é a última palavra.
Depois da Sexta-feira Santa vem a manhã da Ressurreição.
É por isso que uma pessoa que aprende a rezar o Rosário começa, pouco a pouco, a aprender também a interpretar a própria vida à luz de Deus.
O Rosário educa o coração.
Ensina paciência.
Ensina perseverança.
Ensina confiança.
Ensina silêncio.
Ensina contemplação.
E, sobretudo, ensina uma coisa que nós temos muita dificuldade de aprender.
Ensina a entregar.
Há coisas que você não consegue resolver.
Há pessoas que você não consegue mudar.
Há situações que escapam completamente das suas mãos.
Há respostas que você ainda não encontrou.
Há feridas que ainda doem.
Há preocupações que você carrega há anos.
E talvez você esteja tentando controlar aquilo que somente Deus pode conduzir.
Então pegue o seu Rosário.
Segure-o nas mãos.
E transforme cada conta numa entrega. “Senhor, eu te entrego meu filho”.
Ave-Maria. “Senhor, eu te entrego meu casamento”.
Ave-Maria. “Senhor, eu te entrego minha saúde”.
Ave-Maria. “Senhor, eu te entrego aquilo que eu não consigo resolver”.
Ave-Maria. “Senhor, eu te entrego o meu medo do futuro”.
Ave-Maria.
E quando você chegar ao final talvez o problema ainda esteja lá.
Mas alguma coisa terá acontecido dentro de você.
Porque oração não é mágica.
O Rosário não é amuleto.
Nossa Senhora não é uma deusa que substitui Jesus Cristo.
A oração cristã não existe para obrigar Deus a fazer aquilo que queremos.
A oração existe também para permitir que Deus transforme o nosso coração e nos dê força para viver aquilo que não podemos mudar imediatamente.
Por isso, não tenha medo de rezar o Rosário quando estiver distraído.
Não tenha medo de rezá-lo quando estiver cansado.
Não diga: “Hoje eu não consigo me concentrar”.
Reze assim mesmo.
Talvez algumas Ave-Marias saiam bonitas e fervorosas.
Talvez outras saiam no meio das lágrimas.
Talvez algumas sejam rezadas enquanto você luta contra os pensamentos.
Talvez você chegue ao final sem lembrar direito de tudo o que rezou.
Não importa.
Permaneça.
Porque quem ama também permanece.
E a perseverança na oração vai formando dentro de nós um coração novo.
Há famílias que precisam redescobrir isso.
Talvez não consigam rezar o Rosário inteiro juntas todos os dias.
Comecem com uma dezena.
Pais, chamem seus filhos.
Avós, rezem pelos seus netos.
Casais, aprendam a colocar suas dificuldades diante de Deus.
Quando uma família se reúne para rezar, talvez os problemas não desapareçam imediatamente.
Mas aquela família está dizendo: “Nesta casa, nós não queremos enfrentar a vida sem Deus”.
E eu penso também, de maneira muito especial, em quem está doente.
Quantas vezes, diante de uma doença, faltam palavras.
A pessoa não sabe mais o que pedir.
Não sabe mais como rezar.
Às vezes está cansada até de pedir.
Nesses momentos, o Rosário pode se tornar uma oração profundamente consoladora.
Não porque garanta automaticamente a cura que desejamos.
Mas porque nos ajuda a permanecer diante de Deus quando já não sabemos o que dizer.
E há uma cena que sempre me toca profundamente.
Uma pessoa doente, talvez num quarto de hospital, segurando um pequeno terço entre os dedos.
Talvez não tenha forças para grandes discursos.
Talvez nem consiga acompanhar uma oração inteira.
Mas consegue dizer: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco”.
E isso basta para começar.
Cada conta passa pelos dedos como se dissesse: “Eu ainda confio. Eu ainda espero. Eu ainda acredito. Eu não estou sozinho”.
E Nossa Senhora permanece ali, como permaneceu aos pés da Cruz.
Maria não fugiu do Calvário.
Ela permaneceu.
E talvez seja essa uma das maiores graças que o Rosário possa produzir em nós.
Ensinar-nos a permanecer com Jesus.
Permanecer quando tudo vai bem.
Permanecer quando tudo parece dar errado.
Permanecer quando entendemos.
Permanecer quando não entendemos nada.
Permanecer quando recebemos a graça que pedimos.
E permanecer também quando Deus nos conduz por caminhos que jamais imaginaríamos.
Meu irmão.
Minha irmã.
Se você abandonou o Rosário, volte.
Se faz muito tempo que você não pega um terço nas mãos, recomece.
Se você nunca conseguiu rezá-lo diariamente, comece aos poucos.
Não espere ter uma vida perfeita para começar a rezar.
Reze justamente porque a sua vida não é perfeita.
Não espere os problemas terminarem para procurar Deus.
Procure Deus no meio deles.
Não espere sentir vontade.
A oração não pode depender apenas da vontade.
Transforme o Rosário em parte da sua vida.
Reze caminhando.
Reze dentro de casa.
Reze no carro, quando for possível fazê-lo com segurança.
Reze esperando uma consulta.
Reze antes de dormir.
Reze ao amanhecer.
Reze diante do Santíssimo.
Reze sozinho.
Reze com sua família.
Mas reze.
Talvez você diga: “Frei, eu não tenho tempo”.
Então eu lhe faço uma pergunta.
Quanto tempo nós gastamos todos os dias alimentando nossas preocupações e quanto tempo gastamos alimentando a nossa fé?
Talvez não esteja faltando tempo.
Talvez esteja faltando prioridade.
Neste mês dedicado ao Santo Rosário, eu gostaria de lhe fazer um convite.
Um convite muito simples, mas muito sério.
Dê uma chance ao Rosário.
Durante este mês, escolha um horário.
Escolha um lugar.
Pegue o seu terço.
Desligue um pouco o barulho do mundo.
E caminhe com Maria pelos mistérios da vida de Jesus.
Apresente cada filho.
Cada preocupação.
Cada enfermidade.
Cada sonho.
Cada ferida.
Cada pessoa que você ama.
Cada situação que você não consegue resolver.
E diga a Nossa Senhora: “Mãe, caminhe comigo. Leve-me até Jesus. Ensine-me a confiar. Ensine-me a não desistir”.
Tenho certeza de que, depois de algum tempo, você perceberá que não foi apenas você quem carregou o Rosário nas mãos.
Foi o Rosário que ajudou a sustentar você.
Porque existem dias em que seguramos o terço.
E existem dias em que parece que é o terço que nos segura.
Existem noites em que rezamos porque temos fé.
E existem noites em que rezamos justamente para não perder a fé.
Existem momentos em que rezamos para agradecer.
E existem momentos em que cada Ave-Maria é quase um pedido de socorro.
E Maria entende.
Porque ela conhece as alegrias de uma casa em Nazaré.
Mas conhece também a fuga, a insegurança, a pobreza, a preocupação de uma mãe, a perda e a dor.
Ela conhece sobretudo o caminho até o Calvário.
Ela sabe o que significa permanecer de pé diante de uma cruz quando o coração está despedaçado.
Por isso, quando pegamos o Rosário, nós não procuramos uma mãe distante.
Nós nos aproximamos daquela que sabe conduzir os filhos até Jesus.
E talvez hoje você esteja assistindo a este programa carregando alguma cruz que ninguém conhece.
Talvez exista uma preocupação que você não contou para ninguém.
Talvez exista uma lágrima escondida.
Talvez você esteja esperando o resultado de um exame.
Talvez esteja sofrendo por alguém da sua família.
Talvez esteja atravessando uma crise.
Talvez esteja cansado de ser forte.
Então hoje eu quero lhe dizer uma coisa.
Pegue o seu Rosário.
Mesmo que você não consiga rezar muito.
Mesmo que seja apenas uma dezena.
Mesmo que seja apenas uma Ave-Maria rezada devagar e com o coração.
Comece.
Porque toda grande caminhada espiritual começa com um pequeno passo.
E talvez uma simples Ave-Maria rezada hoje seja o começo de uma grande transformação na sua vida de oração.
Que neste mês do Rosário nossas casas voltem a ouvir o som da oração.
Que nossos filhos vejam seus pais rezando.
Que nossos netos vejam seus avós com o terço nas mãos.
Que os doentes encontrem consolo.
Que os aflitos encontrem esperança.
Que os que perderam a fé encontrem novamente o caminho.
Que nossas famílias voltem a colocar Jesus no centro.
E que, conduzidos pelas mãos de Maria, possamos aprender todos os dias a repetir aquilo que o Rosário silenciosamente nos ensina.
Com Jesus, eu caminho.
Com Maria, eu não caminho sozinho.
Na oração, eu encontro forças para continuar.
Se você ainda não rezou hoje, talvez Nossa Senhora tenha marcado este encontro com você justamente para lhe fazer um convite.
Pegue o seu Rosário. Comece de novo. Volte a rezar.
Porque quando uma pessoa dobra os joelhos para rezar, pode até não mudar imediatamente tudo aquilo que está ao seu redor.
Mas Deus começa a transformar tudo aquilo que está dentro dela.
E um coração transformado pela oração começa a enxergar a vida de uma maneira completamente diferente.
Salve Maria!

A ORIGEM DO SANTO ROSÁRIO
Quando pegamos um Rosário nas mãos, estamos segurando muito mais do que algumas contas unidas por um cordão.
Estamos segurando uma oração que atravessou séculos de história.
Uma oração que nasceu pouco a pouco no coração da Igreja, foi sendo aperfeiçoada pela experiência espiritual dos cristãos e chegou até nós como uma verdadeira escola de contemplação de Jesus Cristo com Maria.
Mas afinal, quem criou o Rosário?
Foi Nossa Senhora?
Foi São Domingos?
Foi algum Papa?
A resposta mais correta é esta.
O Rosário, na forma como o conhecemos hoje, não foi criado por uma única pessoa e nem surgiu de uma única vez.
Ele foi sendo formado progressivamente ao longo dos séculos.
O próprio São João Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, afirma que o Rosário foi se formando gradualmente durante o segundo milênio da história cristã.
Portanto, estamos diante de uma oração que amadureceu dentro da própria vida da Igreja.
E para compreender sua origem precisamos voltar à Idade Média.
Na vida dos mosteiros, os monges rezavam diariamente os 150 Salmos da Bíblia.
Era o chamado Saltério.

Porém, havia um problema muito concreto.
Grande parte do povo não sabia ler.
Além disso, os livros eram raros, caros e inacessíveis para a maioria das pessoas.
Como permitir que o povo simples também tivesse uma oração semelhante ao Saltério dos monges?

Começou então a se desenvolver entre os fiéis o costume de substituir os 150 Salmos por outras orações que pudessem ser memorizadas.
Entre elas, o Pai-Nosso e, progressivamente, a Ave-Maria.
Daí surgiu aquilo que durante muito tempo foi chamado de Saltério de Maria.
Em vez dos 150 Salmos, rezavam-se 150 Ave-Marias.
É interessante perceber que até hoje existe essa estrutura.
Tradicionalmente, o Rosário completo possuía quinze dezenas.
Quinze vezes dez Ave-Marias.
Exatamente 150 Ave-Marias.
Portanto, o número não surgiu por acaso.
Ele fazia referência aos 150 Salmos da Sagrada Escritura.

São Paulo VI recordou justamente essa ligação entre as 150 Ave-Marias do Rosário tradicional e o Saltério bíblico.
Mas ainda faltava algo fundamental.
Não bastava simplesmente repetir Ave-Marias.
Era necessário unir a oração vocal à contemplação da vida de Jesus Cristo.
E foi aí que o Rosário começou a adquirir a sua forma propriamente contemplativa.
Enquanto os lábios repetiam a Ave-Maria, a mente e o coração eram convidados a contemplar acontecimentos da vida de Jesus e de Maria.
A Encarnação.
O nascimento de Jesus.
Sua paixão.
Sua morte.
Sua ressurreição.
Sua glória.
É por isso que o Rosário nunca deve ser entendido simplesmente como uma repetição mecânica de Ave-Marias.
As Ave-Marias são como o ritmo da oração. O verdadeiro centro da contemplação é Jesus Cristo.

São João Paulo II usou uma imagem muito bonita.
A repetição das Ave-Marias forma como que o tecido sobre o qual contemplamos os mistérios de Cristo.
Mas onde entra São Domingos de Gusmão nessa história?
São Domingos viveu entre os séculos XII e XIII e morreu em 1221.
Uma antiga e venerável tradição católica, particularmente preservada pela Ordem Dominicana, associa São Domingos à propagação do Rosário.

Segundo essa tradição, Nossa Senhora teria indicado a São Domingos essa oração como instrumento de evangelização e de combate aos erros que ameaçavam a fé.
Os dominicanos realmente tiveram um papel extraordinário na divulgação do Rosário por toda a Europa e, depois, pelo mundo.
Por isso, durante séculos, São Domingos ficou profundamente associado à devoção do Santo Rosário.
Entretanto, quando olhamos historicamente para o desenvolvimento da oração, percebemos que o Rosário não apareceu pronto nas mãos de São Domingos exatamente como nós o rezamos hoje.
Sua estrutura foi sendo construída progressivamente.
Isso não diminui a importância de São Domingos.
Pelo contrário.
A família dominicana tornou-se uma das grandes responsáveis por preservar, organizar, promover e espalhar essa devoção na Igreja.
Com o passar dos séculos, começou também a se desenvolver de maneira mais clara a meditação dos chamados mistérios.
Ou seja, enquanto se rezavam as Ave-Marias, contemplava-se determinado acontecimento da história da salvação.
E aqui encontramos outro personagem importante na história do Rosário.
No século XV, o cartuxo Domingos da Prússia desenvolveu uma forma de oração na qual a Ave-Maria era acompanhada por referências aos acontecimentos da vida de Cristo.
Outros religiosos e pregadores também contribuíram para esse processo.
Pouco a pouco, aquelas meditações foram sendo organizadas.

Até que a tradição consolidou quinze mistérios, distribuídos em três grandes grupos.
Mistérios Gozosos.
Mistérios Dolorosos.
Mistérios Gloriosos.
Os Gozosos contemplavam principalmente a Encarnação e a infância de Jesus.
Os Dolorosos contemplavam sua paixão e morte.
E os Gloriosos contemplavam sua Ressurreição, a ação do Espírito Santo e a glória de Cristo e de Maria.
Assim, o Rosário começou a adquirir a estrutura que permaneceu praticamente inalterada durante aproximadamente cinco séculos.
No século XVI, essa forma já estava muito bem estabelecida na Igreja.
E aqui aparece outro nome fundamental.
São Pio V.
Papa e também dominicano.

Foi durante seu pontificado que a forma tradicional do Rosário recebeu uma confirmação e uma organização muito importante na vida da Igreja.
A partir daí, consolidou-se ainda mais a estrutura das quinze dezenas, organizadas em três conjuntos de mistérios.
E é importante compreender por que chamamos essas cenas de mistérios.
Mistério, na linguagem cristã, não significa simplesmente alguma coisa misteriosa ou impossível de compreender.
Mistério é uma realidade de Deus tão profunda que jamais conseguimos esgotá-la.
Quando contemplamos a Anunciação, por exemplo, não estamos apenas recordando um fato do passado.
Estamos entrando no mistério da Encarnação.
Quando contemplamos Jesus carregando a Cruz, não estamos apenas lembrando uma cena histórica.
Estamos entrando no mistério do amor de Deus que se entrega por nós.
Quando contemplamos a Ressurreição, estamos contemplando o centro da nossa esperança cristã.
Por isso o Rosário é chamado muitas vezes de “compêndio do Evangelho”.
Porque, passando de mistério em mistério, percorremos os grandes acontecimentos da vida de Cristo.
E então chegamos a uma mudança relativamente recente na história do Rosário.
Durante séculos tivemos quinze mistérios.
Cinco Gozosos.
Cinco Dolorosos.
Cinco Gloriosos.
Mas havia um grande período da vida de Jesus que aparecia muito pouco nessa estrutura.
Sua vida pública.
Passávamos praticamente da infância de Jesus diretamente para sua paixão.
E foi justamente pensando nisso que São João Paulo II, em 16 de outubro de 2002, publicou a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae.

Nesse documento, ele propôs acrescentar ao Rosário um novo conjunto de cinco mistérios.
Ele os chamou de Mistérios Luminosos ou Mistérios da Luz.
Por quê?
Porque contemplam Jesus Cristo como Luz do mundo durante sua vida pública.
São João Paulo II propôs cinco acontecimentos.

Primeiro Mistério Luminoso. O Batismo de Jesus no rio Jordão.
Segundo Mistério Luminoso. A autorrevelação de Jesus nas Bodas de Caná.
Terceiro Mistério Luminoso. O anúncio do Reino de Deus e o convite à conversão.
Quarto Mistério Luminoso. A Transfiguração de Jesus.
Quinto Mistério Luminoso. A instituição da Santíssima Eucaristia.
Com isso, o Rosário passou dos tradicionais quinze para vinte mistérios.
São João Paulo II não quis romper com a tradição.
Ao contrário.
Quis tornar ainda mais evidente aquilo que o Rosário sempre foi.
Uma contemplação da vida de Jesus Cristo através do olhar de Maria.
E existe algo belíssimo quando olhamos para toda essa história.
O Rosário nasceu da Bíblia.
Seu Pai-Nosso vem do próprio Jesus.
A primeira parte da Ave-Maria reúne as palavras do anjo Gabriel e de Isabel encontradas no Evangelho de Lucas.
Os mistérios contemplam acontecimentos fundamentais do Evangelho e da história da salvação.
E até sua antiga estrutura de 150 Ave-Marias recordava os 150 Salmos.
Por isso, quando alguém diz que o Rosário nos afasta da Bíblia, talvez ainda não tenha compreendido profundamente o que é o Rosário.
O Rosário nos coloca dentro da Bíblia.
Nós pronunciamos palavras bíblicas enquanto contemplamos acontecimentos bíblicos.
E fazemos tudo isso acompanhados por aquela que, segundo o Evangelho, guardava todas essas coisas e as meditava em seu coração.
Maria.
Talvez seja esta a maneira mais bonita de compreender o Rosário.
Maria guardava os acontecimentos da vida de Jesus em seu coração.
E quando rezamos o Rosário fazemos exatamente isso.
Vamos recolhendo os acontecimentos da vida de Cristo e colocando-os também dentro do nosso coração.
Anunciação.
Visitação.
Nascimento.
Batismo.
Caná.
Reino de Deus.
Transfiguração.
Eucaristia.
Getsêmani.
Flagelação.
Cruz.
Calvário.
Ressurreição.
Pentecostes.
Glória.
É praticamente o Evangelho passando diante dos nossos olhos enquanto as contas passam entre os nossos dedos.
E assim compreendemos por que essa oração atravessou tantos séculos.
Porque o Rosário não é simplesmente uma oração sobre Maria.
É uma oração com Maria, contemplando Jesus.
Maria nunca ocupa o lugar de Cristo.
Maria faz aquilo que sempre fez.
Ela aponta para Cristo.

Como em Caná, continua dizendo aos discípulos de todos os tempos. “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Por isso, quando você pegar o seu Rosário nas mãos, lembre-se.
Você está entrando numa corrente de oração que atravessou gerações.
Antes de você, milhões de cristãos seguraram essas contas.
Reis e camponeses.
Papas e crianças.
Religiosos e mães de família.
Missionários e enfermos.
Pessoas em tempos de paz e pessoas no meio de guerras.
Gente agradecendo.
Gente chorando.
Gente pedindo um milagre.
Gente simplesmente tentando não perder a esperança.
E todos descobriram uma coisa.
As contas podem ser pequenas. A oração pode parecer simples. Mas os mistérios que contemplamos são imensos.
Porque, conta por conta, Ave-Maria por Ave-Maria, Maria vai fazendo conosco aquilo que sempre fez na história da Igreja.
Ela nos toma pela mão e nos conduz até Jesus.







